1. Quem precisa de extremismo ideológico? 

Um dos melhores exemplos de um indivíduo difícil de se entender é um extremista ideológico. Não falo aqui apenas de fanáticos religiosos, membros de organizações como a Ku Klux Klan ou coisas semelhantes - estes são alvos fáceis. Muitas vezes o extremismo surge disfarçado em um brilhante discurso retórico de justiça, prudência ou igualdade. Não aparece apenas da boca de indivíduos visivelmente desequilibrados, mas nas palavras ditas por amigos, conhecidos, colegas e companheiros. Pessoas que consideramos inteligentes, que por vezes admiramos, que estamos condicionados a respeitar.

Por isso mesmo, para identificar um extremista ideológico, sua atenção não deve estar focada no tema do seu discurso mas sim na sua entonação. Não é o que foi dito, mas como. Comumente, seu  falatório é apaixonado: eles não apenas tem um posicionamento específico mas estão envolvidos emocionalmente com este. Você pode notar isso sempre que a pessoa for confrontada de alguma forma; quando a sua ideologia é alvo de críticas o extremista costuma se sentir pessoalmente atacado. Mesmo que tente disfarçar, fica nítido que a pessoa se sentiu ofendida e não apenas contrariada ao ter sua posição criticada.

Outras características notáveis são a tendência de se fazer de vítima e uma profunda necessidade de descrever seu posicionamento como algo prudente, racional e comedido - afinal, fanáticos são sempre os outros, não é verdade? Mas é assim mesmo: da perspectiva de quem se encontra em um extremo, qualquer outra posição vai parecer igualmente extremista. O paradoxo é que é muito comum encontrar pessoas assim com um discurso apaziguador, talvez dizendo que os outros deveriam ter a mente mais aberta, ou se colocando em um suposto centro entre dois outros posicionamentos radicais. Um disfarce perfeito, já que assim é muito mais fácil racionalizar seus atos como prudentes e parcimoniosos.

O mais perigoso é que por causa deste comportamento estas pessoas acabam dando munição para os críticos de determinadas ideologias, justamente por serem caricaturas débeis daquilo que acreditam defender. Desta forma motivam e, na opinião leviana de alguns, até justificam o surgimento de adjetivos pejorativos e preconceituosos, usados para nivelar todos os membros de um grupo como desequilibrados e radicais. Assim surgem palavras como feminazis, gayzistas, crentelhos, chateus, coxinhas, comunas, fascistas, “defensores de bandido”, e tantas outras coisas que lemos por aí. Porque extremismo ideológico nem sempre tem relação com o que a pessoa acredita, mas com a sua forma de lidar com este posicionamento.

É triste quando percebemos isso em alguém próximo que gostamos. Fica aquela sensação de incerteza, talvez até incredulidade, ao pensar: "como pode, fulano é tão inteligente, mas fala coisas assim!" Pessoas inteligentes são extremamente competentes ao justificar os paradoxos e extremismos em seu próprio comportamento. Ironicamente ao invés de ajudar, certas vezes isso atrapalha o seu processo de reconhecimento, perceber quão distorcida é sua opinião. Nestes casos, não há muito o que alguém possa fazer além de lamentar e torcer para que um dia a pessoa escape desta prisão mental onde ela mesma se confinou.

    Quem precisa de extremismo ideológico?

    Um dos melhores exemplos de um indivíduo difícil de se entender é um extremista ideológico. Não falo aqui apenas de fanáticos religiosos, membros de organizações como a Ku Klux Klan ou coisas semelhantes - estes são alvos fáceis. Muitas vezes o extremismo surge disfarçado em um brilhante discurso retórico de justiça, prudência ou igualdade. Não aparece apenas da boca de indivíduos visivelmente desequilibrados, mas nas palavras ditas por amigos, conhecidos, colegas e companheiros. Pessoas que consideramos inteligentes, que por vezes admiramos, que estamos condicionados a respeitar.

    Por isso mesmo, para identificar um extremista ideológico, sua atenção não deve estar focada no tema do seu discurso mas sim na sua entonação. Não é o que foi dito, mas como. Comumente, seu falatório é apaixonado: eles não apenas tem um posicionamento específico mas estão envolvidos emocionalmente com este. Você pode notar isso sempre que a pessoa for confrontada de alguma forma; quando a sua ideologia é alvo de críticas o extremista costuma se sentir pessoalmente atacado. Mesmo que tente disfarçar, fica nítido que a pessoa se sentiu ofendida e não apenas contrariada ao ter sua posição criticada.

    Outras características notáveis são a tendência de se fazer de vítima e uma profunda necessidade de descrever seu posicionamento como algo prudente, racional e comedido - afinal, fanáticos são sempre os outros, não é verdade? Mas é assim mesmo: da perspectiva de quem se encontra em um extremo, qualquer outra posição vai parecer igualmente extremista. O paradoxo é que é muito comum encontrar pessoas assim com um discurso apaziguador, talvez dizendo que os outros deveriam ter a mente mais aberta, ou se colocando em um suposto centro entre dois outros posicionamentos radicais. Um disfarce perfeito, já que assim é muito mais fácil racionalizar seus atos como prudentes e parcimoniosos.

    O mais perigoso é que por causa deste comportamento estas pessoas acabam dando munição para os críticos de determinadas ideologias, justamente por serem caricaturas débeis daquilo que acreditam defender. Desta forma motivam e, na opinião leviana de alguns, até justificam o surgimento de adjetivos pejorativos e preconceituosos, usados para nivelar todos os membros de um grupo como desequilibrados e radicais. Assim surgem palavras como feminazis, gayzistas, crentelhos, chateus, coxinhas, comunas, fascistas, “defensores de bandido”, e tantas outras coisas que lemos por aí. Porque extremismo ideológico nem sempre tem relação com o que a pessoa acredita, mas com a sua forma de lidar com este posicionamento.

    É triste quando percebemos isso em alguém próximo que gostamos. Fica aquela sensação de incerteza, talvez até incredulidade, ao pensar: "como pode, fulano é tão inteligente, mas fala coisas assim!" Pessoas inteligentes são extremamente competentes ao justificar os paradoxos e extremismos em seu próprio comportamento. Ironicamente ao invés de ajudar, certas vezes isso atrapalha o seu processo de reconhecimento, perceber quão distorcida é sua opinião. Nestes casos, não há muito o que alguém possa fazer além de lamentar e torcer para que um dia a pessoa escape desta prisão mental onde ela mesma se confinou.

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    abr. 06 10:19AM
  2. Funk, cultura e dissertação de mestrado

"My pussy é poder - A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural", esse é o título da dissertação de Mariana Gomes, que a levou ao mestrado na Universidade Federal Fluminense. Vale ressaltar aqui que essa proposta ficou em 2º lugar no processo seletivo. Mas e daí? Daí que temos agora dois grupos de revoltados. O primeiro, com a aprovação de uma proposta dessas; o segundo, com a "falta de consciência crítica" deste primeiro grupo que não consegue enxergar a relevância do funk como manifestação cultural.

Mas vejam só, será mesmo? Vamos analisar um pouco isso.

Para começar, vamos falar um pouco sobre o valor social do funk. Para todos os defensores que perguntam "quantas músicas você ouviu para formar a sua opinião", eu também tenho uma pergunta bem simples. Vocês, com seu vasto repertório de exemplos, poderiam então me citar ao menos três ou quatro deles? Três ou quatro músicas de funk que realmente trazem algo de valor indiscutível, que nos mostram esse grande mérito que o funk possui na sociedade moderna? Não deve ser nada difícil, pelo que vocês falam por aí. Obviamente quando falo de funk não estou falando de “James Brown”, “Earth, Wind & Fire” e “The Commodores”. Porque, sim, todos esses são exemplos de funk, mas não é disso que estamos falando aqui, é?

Funk é uma manifestação cultural? Certamente é. Mas nem toda manifestação cultural é intrinsecamente boa. O que não significa (para mim) que ela deve ser "combatida" ou "extinta" como muitos devem pensar. Até porque, aposto que entre os que desejam isso ao funk, existem muitos indivíduos que assistem novela, leem quadrinhos, assistem filmes sem qualquer conteúdo aproveitável e também vídeos idiotas no youtube… Enfim, todos temos passatempos que não são nada produtivos. Mas quem disse que na vida tudo tem que ser? Há coisas que fazemos porque gostamos de fazer. E basta, é suficiente! Seja dançar/ouvir funk, seja qualquer outra coisa, não é crime fazer algo que te diverte, no sentido mais literal da palavra.

Mas vale ressaltar que isso não significa que existe algum "valor maior" nessas atividades. Na verdade, essa busca por valor só faz mostrar a profunda insegurança que muitas pessoas possuem em relação aos seus gostos e hábitos. Elas buscam desesperadamente legitimar seu passatempo, querem justificar aquilo que fazem encontrando algum valor maior e transcendente, uma razão profunda que exemplifique o mérito de se praticar tal atividade. Não conseguem simplesmente assumir que aquela manifestação não tem qualquer conteúdo digno de nota. É doloroso, humilhante até. Mas por que? Me diga, por que você precisa justificar o que te diverte?

Eu, por exemplo, gosto de jogos eletrônicos. Existem alguns jogos que são verdadeiras obras de arte, é verdade, que exploram aspectos relevantes e profundos da natureza humana. Mas não são muitos. Os mais comuns são os jogos completamente retardados e sem qualquer espaço para reflexão. Aliás, quando você está jogando, o que você menos quer é ficar pensando sobre qualquer assunto complicado! Mas mesmo desses jogos eu gosto, eles me divertem. Se alguém me disser que "esse jogo é uma porcaria" ou que "ele não acrescenta nada a sua vida"… Eu vou concordar! O mesmo é válido para muitas outras coisas que todos fazemos. Mas vejam só, na verdade ele até que acrescenta algo sim: um tanto de diversão, que é exatamente o que eu queria dele. Precisa de mais?

A mesma coisa pode ser dita de qualquer outra forma de arte, ou também de qualquer tipo de manifestação cultural. Arte não é um adjetivo de intensidade, mas de qualidade. (Qualidade aqui no sentido de “característica/tipo”.) Uma coisa não é arte porque é boa o suficiente para ser arte, ela é arte simplesmente por ser vista dessa forma. Assim sendo, existe a "arte boa" e a "arte ruim", mas é tudo arte. Nem preciso dar exemplos aqui porque uma rápida busca no Google vai te oferecer milhares de obras de arte que de "artísticas" não tem nada. Ser arte não agrega qualquer valor a um objeto, da mesma forma que ser uma manifestação cultural também não. Funk é cultura? É, mas isso não significa nada. "Tudo é cultura", como dizem.

O ponto é: as músicas de funk são superficiais, muitas vezes até ridículas? Sim, certamente que são. Assim como muitas outras músicas e milhares de outros passatempos também. Por que tanto medo de assumir o óbvio, para que tanto complexo de inferioridade? Por que essa necessidade de equiparar todas as formas de manifestação para conseguir aceitar as coisas pelo que elas são? O quadro desenhado pelo seu irmão de 8 anos não possui o mesmo valor que um de Picasso. O cachorro quente da esquina não é uma refeição tão rebuscada quanto um "Coq au Vin" feito em um restaurante chique. Mas quer saber? Eu gosto muito mais do cachorro quente. Só não vou tentar convencer o chef que ambos os pratos tem o mesmo "valor".

Mas aqui existe um último ponto importante: com tudo o que disse acima eu não estou dizendo que não existem reflexões interessantes que possam ser feitas a respeito do funk. Não tanto sobre o estilo musical em si, mas sobre o motivo de sua popularização, as causas e consequências disso e os efeitos na sociedade. Essas são, sim, análises dignas de um mestrado ou doutorado. Só não devemos confundir as duas coisas. Estudar a existência do funk como uma manifestação cultural pode ser (e acredito que é) tão importante quanto estudar qualquer outra manifestação. Qualquer pessoa que tem contato com o meio acadêmico sabe que praticamente tudo pode ser objeto de estudo, dependendo da abordagem.

Mas isso não significa que as músicas de Valesca Popozuda tem o mesmo valor que as produções de Caetano Veloso. Se você realmente acredita nisso e seu melhor argumento é acusar de "elitista" quem afirma o contrário… Só lamento por você.

    Funk, cultura e dissertação de mestrado

    "My pussy é poder - A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural", esse é o título da dissertação de Mariana Gomes, que a levou ao mestrado na Universidade Federal Fluminense. Vale ressaltar aqui que essa proposta ficou em 2º lugar no processo seletivo. Mas e daí? Daí que temos agora dois grupos de revoltados. O primeiro, com a aprovação de uma proposta dessas; o segundo, com a "falta de consciência crítica" deste primeiro grupo que não consegue enxergar a relevância do funk como manifestação cultural.

    Mas vejam só, será mesmo? Vamos analisar um pouco isso.

    Para começar, vamos falar um pouco sobre o valor social do funk. Para todos os defensores que perguntam "quantas músicas você ouviu para formar a sua opinião", eu também tenho uma pergunta bem simples. Vocês, com seu vasto repertório de exemplos, poderiam então me citar ao menos três ou quatro deles? Três ou quatro músicas de funk que realmente trazem algo de valor indiscutível, que nos mostram esse grande mérito que o funk possui na sociedade moderna? Não deve ser nada difícil, pelo que vocês falam por aí. Obviamente quando falo de funk não estou falando de “James Brown”, “Earth, Wind & Fire” e “The Commodores”. Porque, sim, todos esses são exemplos de funk, mas não é disso que estamos falando aqui, é?

    Funk é uma manifestação cultural? Certamente é. Mas nem toda manifestação cultural é intrinsecamente boa. O que não significa (para mim) que ela deve ser "combatida" ou "extinta" como muitos devem pensar. Até porque, aposto que entre os que desejam isso ao funk, existem muitos indivíduos que assistem novela, leem quadrinhos, assistem filmes sem qualquer conteúdo aproveitável e também vídeos idiotas no youtube… Enfim, todos temos passatempos que não são nada produtivos. Mas quem disse que na vida tudo tem que ser? Há coisas que fazemos porque gostamos de fazer. E basta, é suficiente! Seja dançar/ouvir funk, seja qualquer outra coisa, não é crime fazer algo que te diverte, no sentido mais literal da palavra.

    Mas vale ressaltar que isso não significa que existe algum "valor maior" nessas atividades. Na verdade, essa busca por valor só faz mostrar a profunda insegurança que muitas pessoas possuem em relação aos seus gostos e hábitos. Elas buscam desesperadamente legitimar seu passatempo, querem justificar aquilo que fazem encontrando algum valor maior e transcendente, uma razão profunda que exemplifique o mérito de se praticar tal atividade. Não conseguem simplesmente assumir que aquela manifestação não tem qualquer conteúdo digno de nota. É doloroso, humilhante até. Mas por que? Me diga, por que você precisa justificar o que te diverte?

    Eu, por exemplo, gosto de jogos eletrônicos. Existem alguns jogos que são verdadeiras obras de arte, é verdade, que exploram aspectos relevantes e profundos da natureza humana. Mas não são muitos. Os mais comuns são os jogos completamente retardados e sem qualquer espaço para reflexão. Aliás, quando você está jogando, o que você menos quer é ficar pensando sobre qualquer assunto complicado! Mas mesmo desses jogos eu gosto, eles me divertem. Se alguém me disser que "esse jogo é uma porcaria" ou que "ele não acrescenta nada a sua vida"… Eu vou concordar! O mesmo é válido para muitas outras coisas que todos fazemos. Mas vejam só, na verdade ele até que acrescenta algo sim: um tanto de diversão, que é exatamente o que eu queria dele. Precisa de mais?

    A mesma coisa pode ser dita de qualquer outra forma de arte, ou também de qualquer tipo de manifestação cultural. Arte não é um adjetivo de intensidade, mas de qualidade. (Qualidade aqui no sentido de “característica/tipo”.) Uma coisa não é arte porque é boa o suficiente para ser arte, ela é arte simplesmente por ser vista dessa forma. Assim sendo, existe a "arte boa" e a "arte ruim", mas é tudo arte. Nem preciso dar exemplos aqui porque uma rápida busca no Google vai te oferecer milhares de obras de arte que de "artísticas" não tem nada. Ser arte não agrega qualquer valor a um objeto, da mesma forma que ser uma manifestação cultural também não. Funk é cultura? É, mas isso não significa nada. "Tudo é cultura", como dizem.

    O ponto é: as músicas de funk são superficiais, muitas vezes até ridículas? Sim, certamente que são. Assim como muitas outras músicas e milhares de outros passatempos também. Por que tanto medo de assumir o óbvio, para que tanto complexo de inferioridade? Por que essa necessidade de equiparar todas as formas de manifestação para conseguir aceitar as coisas pelo que elas são? O quadro desenhado pelo seu irmão de 8 anos não possui o mesmo valor que um de Picasso. O cachorro quente da esquina não é uma refeição tão rebuscada quanto um "Coq au Vin" feito em um restaurante chique. Mas quer saber? Eu gosto muito mais do cachorro quente. Só não vou tentar convencer o chef que ambos os pratos tem o mesmo "valor".

    Mas aqui existe um último ponto importante: com tudo o que disse acima eu não estou dizendo que não existem reflexões interessantes que possam ser feitas a respeito do funk. Não tanto sobre o estilo musical em si, mas sobre o motivo de sua popularização, as causas e consequências disso e os efeitos na sociedade. Essas são, sim, análises dignas de um mestrado ou doutorado. Só não devemos confundir as duas coisas. Estudar a existência do funk como uma manifestação cultural pode ser (e acredito que é) tão importante quanto estudar qualquer outra manifestação. Qualquer pessoa que tem contato com o meio acadêmico sabe que praticamente tudo pode ser objeto de estudo, dependendo da abordagem.

    Mas isso não significa que as músicas de Valesca Popozuda tem o mesmo valor que as produções de Caetano Veloso. Se você realmente acredita nisso e seu melhor argumento é acusar de "elitista" quem afirma o contrário… Só lamento por você.

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  3. A palavra certa, no lugar certo, para o leitor errado…

O que vou dizer aqui não é nenhuma revelação divina, mas muita gente precisa escutar com o coração aberto: a maioria das pessoas escreve muito mal. Não, eu não estou falando aqui das pessoas que escrevem "menas" ou "seje", esse é um papo velho. Estou falando de pessoas que realmente obedecem as regras de ortografia vigentes na língua portuguesa mas que não possuem a capacidade de entender as sutilezas existentes na interpretação textual. Em outras palavras, pessoas que sabem o que querem dizer mas não sabem o que estão dizendo e se surpreendem quando as outras pessoas entendem algo de forma errada.

Passei por um exemplo disso essa semana, com um comentário de um conhecido no Facebook. O exemplo é um tanto polêmico, como não podia deixar de ser. O tema foi o casamento homoafetivo, aposto até que muitos já ouviram algo semelhante. A frase dele foi algo como "eu amo os homossexuais, assim como amo os assassinos e os drogados". Pois é, eu sei, tem tanta coisa errada nessa frase que é até difícil escolher por onde começar. Podia perguntar se ele realmente ama os assassinos, verdadeiramente, se ele sente por cada um deles algo da mesma intensidade do que sente em relação ao próprio pai; mas aqui estamos desviando do assunto. Não é uma análise sobre a veracidade da afirmação, mas sobre a capacidade de se expressar corretamente.

Vou deixar claro, sei perfeitamente o que ele quis dizer com isso. A intenção dele era afirmar que respeita a "humanidade" presente em cada indivíduo ainda que discorde das suas atitudes, ou algo mais ou menos nesse sentido. Levando pelo contexto em que a frase foi usada, era uma tentativa de afirmar que expressar a sua discordância não seria uma forma de preconceito. É isso o que ele quis dizer, mas com toda certeza não é isso o que ele disse. 

Alguém lembra das aulas de português no ensino fundamental onde todos aprendemos os conceitos de denotação e conotação? Relembrando, denotação é o ato de se utilizar palavras no seu sentido próprio, literal. Conotação é o emprego do sentido figurado, que depende do contexto. Seria correto pensar que a conotação seria o uso de metáforas e/ou outras figuras de linguagem… Correto, porém é uma visão ingênua e simplória. Um texto diz muito não só pelo que é dito e pelo que pode ser inferido de forma direta, mas também pelo que você escolhe não dizer, pelas escolhas das palavras, dos adjetivos, por cada detalhe presente em sua composição.

Não é um assunto batido lembrar que "a mídia manipula as massas"? Isso é uma coisa que ninguém duvida, mas poucos param para analisar como essa manipulação é feita. Quando falamos da interpretação textual é impossível não citar a Gestalt. Sim, eu sei que não é uma das correntes mais benquistas da psicologia, mas funciona muito bem quando vamos falar da interpretação humana. Aconselho até que você pesquise um pouco sobre o assunto, mas para o exemplo deste post, eu diria que os princípios de proximidade e semelhança são fundamentais. O que eles nos mostram, de forma resumida, é que todo ser humano tem a tendência de agrupar coisas (sejam ideias, conceitos, objetos ou pessoas) com base no quão próximas estão e quão parecidas são entre si. Um bom escritor sabe disso e usa tal efeito em seu favor; um mal escritor é usado por isso e se perde quando escreve.

Voltando ao exemplo do nosso amigo, ao usar palavras como homossexuais, assassinos e drogados em sequência, elas são instintivamente agrupadas por pura questão de disposição. Não só isso, mas entre todas as palavras possíveis existentes na língua portuguesa, foram essas as escolhidas e não outras. Seria essa uma escolha arbitrária? É certo que não e qualquer pessoa percebe isso. Foram empregadas de forma deliberada e, ao serem usadas em sucessão, contextualizam o que está sendo dito. A frase não é uma comparação mas passar ter a conotação de uma comparação, tornando-se ofensiva. Bastaria trocar o exemplo para qualquer outra coisa para notar isso: "respeito os religiosos, as prostitutas e os drogados, mesmo que discorde de seus hábitos". Com certeza, ele não pensaria que essa é uma frase gentil, não é verdade? Por que será?

O uso das características inerentes à interpretação humana pode ser visto com frequência em textos jornalísticos. Por exemplo, imagine um texto afirmando que “João Paulo foi acusado de captação ilícita de sufrágio”, citando logo depois que “Roberto Campos, funcionário do mesmo ministério de João, foi condenado pelo mesmo crime”. Ainda que sejam dois casos distintos e que, talvez, ambos os indivíduos mal se conheçam, os leitores já são induzidos a pensar que o João é culpado sem que em nenhum momento o escritor tenha realmente afirmado isso. Cada exemplo usado no texto, os adjetivos escolhidos, as informações divulgadas e omitidas, tudo isso é parte integrante da construção de sentido, daquilo que ficará na mente do leitor. Detalhes aparentemente sutis mudam drasticamente o tom de um discurso.

Saber escrever bem não é só saber utilizar as palavras seguindo as regras da gramática, mas mais que isso, é saber "fazer sentido". É ser capaz de expressar o seu pensamento de forma que os outros entendam, assim como ser capaz de entender aquilo que os outros querem expressar. Ignorar completamente a forma que a percepção e interpretação humana funciona é o sinal característico de um péssimo escritor, que acredita viver em uma redoma mágica onde todos são obrigados a compreender as coisas da forma que ele quer que compreendam, culpando o mundo quando isso não acontece. Escrever bem é acima de tudo se fazer entender. Raramente o erro está inteiramente apenas em um dos lados do diálogo.

    A palavra certa, no lugar certo, para o leitor errado…

    O que vou dizer aqui não é nenhuma revelação divina, mas muita gente precisa escutar com o coração aberto: a maioria das pessoas escreve muito mal. Não, eu não estou falando aqui das pessoas que escrevem "menas" ou "seje", esse é um papo velho. Estou falando de pessoas que realmente obedecem as regras de ortografia vigentes na língua portuguesa mas que não possuem a capacidade de entender as sutilezas existentes na interpretação textual. Em outras palavras, pessoas que sabem o que querem dizer mas não sabem o que estão dizendo e se surpreendem quando as outras pessoas entendem algo de forma errada.

    Passei por um exemplo disso essa semana, com um comentário de um conhecido no Facebook. O exemplo é um tanto polêmico, como não podia deixar de ser. O tema foi o casamento homoafetivo, aposto até que muitos já ouviram algo semelhante. A frase dele foi algo como "eu amo os homossexuais, assim como amo os assassinos e os drogados". Pois é, eu sei, tem tanta coisa errada nessa frase que é até difícil escolher por onde começar. Podia perguntar se ele realmente ama os assassinos, verdadeiramente, se ele sente por cada um deles algo da mesma intensidade do que sente em relação ao próprio pai; mas aqui estamos desviando do assunto. Não é uma análise sobre a veracidade da afirmação, mas sobre a capacidade de se expressar corretamente.

    Vou deixar claro, sei perfeitamente o que ele quis dizer com isso. A intenção dele era afirmar que respeita a "humanidade" presente em cada indivíduo ainda que discorde das suas atitudes, ou algo mais ou menos nesse sentido. Levando pelo contexto em que a frase foi usada, era uma tentativa de afirmar que expressar a sua discordância não seria uma forma de preconceito. É isso o que ele quis dizer, mas com toda certeza não é isso o que ele disse.

    Alguém lembra das aulas de português no ensino fundamental onde todos aprendemos os conceitos de denotação e conotação? Relembrando, denotação é o ato de se utilizar palavras no seu sentido próprio, literal. Conotação é o emprego do sentido figurado, que depende do contexto. Seria correto pensar que a conotação seria o uso de metáforas e/ou outras figuras de linguagem… Correto, porém é uma visão ingênua e simplória. Um texto diz muito não só pelo que é dito e pelo que pode ser inferido de forma direta, mas também pelo que você escolhe não dizer, pelas escolhas das palavras, dos adjetivos, por cada detalhe presente em sua composição.

    Não é um assunto batido lembrar que "a mídia manipula as massas"? Isso é uma coisa que ninguém duvida, mas poucos param para analisar como essa manipulação é feita. Quando falamos da interpretação textual é impossível não citar a Gestalt. Sim, eu sei que não é uma das correntes mais benquistas da psicologia, mas funciona muito bem quando vamos falar da interpretação humana. Aconselho até que você pesquise um pouco sobre o assunto, mas para o exemplo deste post, eu diria que os princípios de proximidade e semelhança são fundamentais. O que eles nos mostram, de forma resumida, é que todo ser humano tem a tendência de agrupar coisas (sejam ideias, conceitos, objetos ou pessoas) com base no quão próximas estão e quão parecidas são entre si. Um bom escritor sabe disso e usa tal efeito em seu favor; um mal escritor é usado por isso e se perde quando escreve.

    Voltando ao exemplo do nosso amigo, ao usar palavras como homossexuais, assassinos e drogados em sequência, elas são instintivamente agrupadas por pura questão de disposição. Não só isso, mas entre todas as palavras possíveis existentes na língua portuguesa, foram essas as escolhidas e não outras. Seria essa uma escolha arbitrária? É certo que não e qualquer pessoa percebe isso. Foram empregadas de forma deliberada e, ao serem usadas em sucessão, contextualizam o que está sendo dito. A frase não é uma comparação mas passar ter a conotação de uma comparação, tornando-se ofensiva. Bastaria trocar o exemplo para qualquer outra coisa para notar isso: "respeito os religiosos, as prostitutas e os drogados, mesmo que discorde de seus hábitos". Com certeza, ele não pensaria que essa é uma frase gentil, não é verdade? Por que será?

    O uso das características inerentes à interpretação humana pode ser visto com frequência em textos jornalísticos. Por exemplo, imagine um texto afirmando que “João Paulo foi acusado de captação ilícita de sufrágio”, citando logo depois que “Roberto Campos, funcionário do mesmo ministério de João, foi condenado pelo mesmo crime”. Ainda que sejam dois casos distintos e que, talvez, ambos os indivíduos mal se conheçam, os leitores já são induzidos a pensar que o João é culpado sem que em nenhum momento o escritor tenha realmente afirmado isso. Cada exemplo usado no texto, os adjetivos escolhidos, as informações divulgadas e omitidas, tudo isso é parte integrante da construção de sentido, daquilo que ficará na mente do leitor. Detalhes aparentemente sutis mudam drasticamente o tom de um discurso.

    Saber escrever bem não é só saber utilizar as palavras seguindo as regras da gramática, mas mais que isso, é saber "fazer sentido". É ser capaz de expressar o seu pensamento de forma que os outros entendam, assim como ser capaz de entender aquilo que os outros querem expressar. Ignorar completamente a forma que a percepção e interpretação humana funciona é o sinal característico de um péssimo escritor, que acredita viver em uma redoma mágica onde todos são obrigados a compreender as coisas da forma que ele quer que compreendam, culpando o mundo quando isso não acontece. Escrever bem é acima de tudo se fazer entender. Raramente o erro está inteiramente apenas em um dos lados do diálogo.

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  4. Deixando claro: não existe "evangelicofobia"!

Como publiquei um texto tem pouco tempo, queria esperar mais para postar esse aqui. Mas não tem como, por causa do que tenho visto pela internet. Primeiro, por culpa das manifestações contra o Marco Feliciano. Ou melhor dizendo, por causa do que alguns religiosos tem dito a respeito delas. Segundo, por causa de uma imagem que vi agora há pouco no Facebook sobre uma campanha para pedir a cassação do deputado Jean Wyllys por causa da apologia que ele tem feito a respeito de certas “liberdades”. Sem brincadeira, é assim mesmo que estava escrito. Mas por que tudo isso? Obviamente, para defender a religião dos ataques da sociedade, tão corrompida e malvada. Todos sabemos que os religiosos estão sendo perseguidos incansavelmente por um bando de pessoas preconceituosas, briguentas e desrespeitosas, não é?

Só que essa estratégia dos religiosos não é nenhuma novidade. É exatamente a mesma coisa que eles fizeram para tentar impor a sua mitologia de criação como assunto nas aulas de ciência, o chamado criacionismo. Uma vez que suas afirmações eram absurdas e sem qualquer embasamento, como eles poderiam enfrentar um adversário tão diferente? A resposta é bem simples, basta pegar todos os conceitos científicos que você não aceita e atribuir um único rótulo a eles: "evolucionismo". Na realidade tal conceito nunca existiu, o que os religiosos chamam de evolucionismo são diversos fatos, teorias e leis de áreas distintas da ciência, como astrofísica, biologia e paleontologia. Só que para conseguir brigar em pé de igualdade, eles precisavam rebaixar toda opinião contrária para algo que estivesse "no mesmo nível".

É exatamente a mesma coisa que tentam fazer agora acusando as pessoas de serem “evangelicofóbicas”. Querem igualar as posições, sem considerar as (gritantes) diferenças entre ambas.

No caso, o que os evangélicos querem mesmo é direito de serem homofóbicos. Querem ter o "direito" de impor padrões de comportamento a outras pessoas. Mas fica feio assumir isso na cara dura, não é? Então quando as críticas de diversos grupos caem como meteoros destroçando os argumentos primários que eles possuem, a melhor forma de se defender é acusar os seus críticos daquilo que eles mesmos são profissionais em praticar: preconceito. Estranhamente, nunca vi um integrante do movimento GLBT propondo o fim do casamento hétero, o fim das cerimônias religiosas no casamento, ou quem sabe até a adoção de crianças por casais evangélicos. Sendo bem sincero, eu nunca vi nenhum membro de nenhum grupo social propor algo parecido, exceto… Adivinha? Os próprios evangélicos, é claro. Que querem negar tudo isso a outras pessoas sem qualquer base.

Mas se isso deixar os evangélicos felizes, eu até aceitaria ser chamado de "evangelicofóbico". Sério, mas apenas no mesmo sentido em que sou "assassinofóbico", "pilantrafóbico" ou "preconceituosofóbico".  (É neologismo demais para uma frase só!) Em outras palavras, tenho preconceito contra preconceituosos, não tolero comportamentos intolerantes e não respeito atitudes desrespeitosas. Nunca defenderei o suposto direito de negar o direito alheio. Aliás farei sempre o extremo oposto, usarei de todos os meios necessários ao meu alcance para impedir que pessoas com ideias assim tão nocivas tenham qualquer poder de influenciar a sociedade em que vivo de forma significativa. Alias, de qualquer forma que seja, não quero ver alguém assim eleito nem mesmo como síndico do condomínio. Melhor não arriscar.

Só um comentário extra: apesar de tudo o que eu disse acima, vale lembrar que eu não sou contra o direito dos evangélicos expressarem a sua opinião, por mais absurda que seja. Acho que a liberdade de expressão é um direito muito importante e se começarmos a colocar barreiras, mesmo que na melhor das intenções, entramos em um declive muito escorregadio e perigoso. Mas isso é assunto para outra postagem porque é um longo debate - com nuances muito mais complexas do que as dessa reflexão aqui. O ponto é que não me incomoda que os evangélicos pensem e até afirmem que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é algo "contra a lei de Deus". Ser ignorante ainda é um direito, eu acho. Mas quando isso sai do discurso e entramos na questão de tentar limitar o direito dos outros… Aí a história complica, meus caros.

    Deixando claro: não existe "evangelicofobia"!

    Como publiquei um texto tem pouco tempo, queria esperar mais para postar esse aqui. Mas não tem como, por causa do que tenho visto pela internet. Primeiro, por culpa das manifestações contra o Marco Feliciano. Ou melhor dizendo, por causa do que alguns religiosos tem dito a respeito delas. Segundo, por causa de uma imagem que vi agora há pouco no Facebook sobre uma campanha para pedir a cassação do deputado Jean Wyllys por causa da apologia que ele tem feito a respeito de certas “liberdades”. Sem brincadeira, é assim mesmo que estava escrito. Mas por que tudo isso? Obviamente, para defender a religião dos ataques da sociedade, tão corrompida e malvada. Todos sabemos que os religiosos estão sendo perseguidos incansavelmente por um bando de pessoas preconceituosas, briguentas e desrespeitosas, não é?

    Só que essa estratégia dos religiosos não é nenhuma novidade. É exatamente a mesma coisa que eles fizeram para tentar impor a sua mitologia de criação como assunto nas aulas de ciência, o chamado criacionismo. Uma vez que suas afirmações eram absurdas e sem qualquer embasamento, como eles poderiam enfrentar um adversário tão diferente? A resposta é bem simples, basta pegar todos os conceitos científicos que você não aceita e atribuir um único rótulo a eles: "evolucionismo". Na realidade tal conceito nunca existiu, o que os religiosos chamam de evolucionismo são diversos fatos, teorias e leis de áreas distintas da ciência, como astrofísica, biologia e paleontologia. Só que para conseguir brigar em pé de igualdade, eles precisavam rebaixar toda opinião contrária para algo que estivesse "no mesmo nível".

    É exatamente a mesma coisa que tentam fazer agora acusando as pessoas de serem “evangelicofóbicas”. Querem igualar as posições, sem considerar as (gritantes) diferenças entre ambas.

    No caso, o que os evangélicos querem mesmo é direito de serem homofóbicos. Querem ter o "direito" de impor padrões de comportamento a outras pessoas. Mas fica feio assumir isso na cara dura, não é? Então quando as críticas de diversos grupos caem como meteoros destroçando os argumentos primários que eles possuem, a melhor forma de se defender é acusar os seus críticos daquilo que eles mesmos são profissionais em praticar: preconceito. Estranhamente, nunca vi um integrante do movimento GLBT propondo o fim do casamento hétero, o fim das cerimônias religiosas no casamento, ou quem sabe até a adoção de crianças por casais evangélicos. Sendo bem sincero, eu nunca vi nenhum membro de nenhum grupo social propor algo parecido, exceto… Adivinha? Os próprios evangélicos, é claro. Que querem negar tudo isso a outras pessoas sem qualquer base.

    Mas se isso deixar os evangélicos felizes, eu até aceitaria ser chamado de "evangelicofóbico". Sério, mas apenas no mesmo sentido em que sou "assassinofóbico", "pilantrafóbico" ou "preconceituosofóbico". (É neologismo demais para uma frase só!) Em outras palavras, tenho preconceito contra preconceituosos, não tolero comportamentos intolerantes e não respeito atitudes desrespeitosas. Nunca defenderei o suposto direito de negar o direito alheio. Aliás farei sempre o extremo oposto, usarei de todos os meios necessários ao meu alcance para impedir que pessoas com ideias assim tão nocivas tenham qualquer poder de influenciar a sociedade em que vivo de forma significativa. Alias, de qualquer forma que seja, não quero ver alguém assim eleito nem mesmo como síndico do condomínio. Melhor não arriscar.

    Só um comentário extra: apesar de tudo o que eu disse acima, vale lembrar que eu não sou contra o direito dos evangélicos expressarem a sua opinião, por mais absurda que seja. Acho que a liberdade de expressão é um direito muito importante e se começarmos a colocar barreiras, mesmo que na melhor das intenções, entramos em um declive muito escorregadio e perigoso. Mas isso é assunto para outra postagem porque é um longo debate - com nuances muito mais complexas do que as dessa reflexão aqui. O ponto é que não me incomoda que os evangélicos pensem e até afirmem que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é algo "contra a lei de Deus". Ser ignorante ainda é um direito, eu acho. Mas quando isso sai do discurso e entramos na questão de tentar limitar o direito dos outros… Aí a história complica, meus caros.

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  5. O ‘paradoxo de Fermi’ e o silêncio do espaço

Se você se interessa por ciência, ficção científica exploração espacial, muito provavelmente já ouviu falar do paradoxo de Fermi. Se não ouviu, não se preocupe, é uma ideia relativamente simples. O universo é muito antigo e muito vasto para que a vida não tenha surgido em outros planetas - por menor que seja a probabilidade, são bilhões de planetas e bilhões de anos! Por causa disso seria no mínimo absurdo imaginar que tal evento não ocorreu milhões de vezes, várias delas em nossa própria galáxia. Seguindo esse raciocínio nós podemos inferir que parte desses seres vivos deveriam ter evoluído até alcançar níveis de inteligência iguais ou até superiores ao nosso. Quem sabe até com tecnologia suficiente para explorar e povoar toda a galáxia, afinal tiveram bilhões de anos para isso. Mas se o problema é, se for assim, "onde eles estão"?

Os humanos são seres "barulhentos". Não estou falando das ondas sonoras mas a respeito das ondas de rádio, imagine o tanto de informação que estamos enviando continuamente para o espaço a cada dia. Qualquer civilização que estivesse a cerca de 90 anos-luz da Terra estaria agora recebendo nossas primeiras emissões. Se tivessem qualquer tipo de antena apontada para o céu, seriam capazes de perceber um padrão estranho e regular nas ondas que receberiam em seu planeta, o que é um sinal de inteligência. O problema é que a recíproca é verdadeira! A essa altura da existência do universo, o espaço deveria estar cheio de ondas de rádio emitidas por civilizações alienígenas em seus planetas vindo de todos os cantos até nós. Mas não é o que está acontecendo, os cientistas procuram sinais assim há décadas e até agora não tiveram nenhum resultado significativo.

Para entender um pouco mais do paradoxo de Fermi, temos que falar também da equação de Drake. Ela foi formulada pelo Dr. Frank Drake em 1961 em uma tentativa de encontrar um jeito sistemático para avaliar as numerosas probabilidades envolvidas com a existência ou não de vida alienígena. A equação leva em consideração fatores como a taxa de formação de estrelas; a fração de estrelas com planetas habitáveis; a fração de planetas que desenvolvem vida inteligente e suficientemente avançada para ser detectada. Obviamente essa equação é apenas um exercício mental, especulativo, já que não sabemos qual a probabilidade de que a vida surja em um determinado planeta, entre outras coisas. Mas mesmo assumindo valores bem pessimistas para esses fatores, a nossa galáxia ainda deveria  estar cheia de vestígios de vida inteligente extraterrestre.

Existem várias explicações possíveis para o silêncio do espaço, desde conspirações do governo que esconderia as evidências (algo meio “MIB” e tal) como também a ideia que a maioria das civilizações acabam se destruindo no processo, por exaurir os recursos do seu próprio planeta. Não vou listar todas aqui porque são inúmeras - se tiver curiosidade, basta fazer uma busca no Google. O que farei é falar das duas que considero como as mais plausíveis e que são, também, complementares: (a) o hipótese de que esses seres estariam distantes demais para serem percebidos aqui do nosso planeta e (b) a hipótese de que talvez nunca seja possível para qualquer espécie inteligente fazer viagens espaciais para conseguir explorar e colonizar o universo.

Falando da primeira questão, não é difícil entender. Sinais de rádio, assim com qualquer tipo de transmissão por meio de radiação eletromagnética, tem um determinado alcance. Sabemos disso até bem demais, afinal, quantas vezes não sofremos com um celular que ficou sem sinal? (Insira aqui uma piada sobre o sinal da TIM!) As nossas ondas de rádio estão de fato vagando pelo espaço. Mas quanto mais se propagam e se afastam do seu ponto de emissão, mais elas se tornam fracas e sofrem interferência de outras formas de radiação que existem no universo. Ainda que nossas antenas estejam se tornando mais e mais potentes, quem sabe qual a distância máxima em que as nossas ondas de rádio seriam detectáveis? Talvez os extraterrestres de fato estejam emitido ondas como as nossas, mas é bem possível que elas acabem desaparecendo muito antes de chegar até nós. Estaríamos procurando algo que nunca seremos capazes de encontrar.

Outra questão é que a viagem espacial pode não ser assim tão plausível quanto pensamos atualmente. Na ficção científica, sempre vemos os seres humanos colonizando vários planetas e viajando entre galáxias. Mas será que esse tipo de coisa é mesmo possível? Acho até plausível que em um futuro não tão distante a humanidade consiga viajar para planetas como Marte e criar estações espaciais por lá. Mas ir para fora do próprio sistema solar talvez seja algo simplesmente inalcançável por questões práticas. Pode ser que não exista combustível suficiente, talvez porque as viagens seriam longas demais… Não importa o motivo. Basta lembrar que na década de 50 todos imaginavam que no ano 2000 teríamos carros voadores e cintos anti-gravidade. Você está vendo algo parecido com isso por aí? Nem sempre o futuro acontece da forma que imaginamos, talvez o destino dos seres humanos seja ficar “preso” nas vizinhanças de nosso planeta natal.

Se levamos ambas hipóteses descritas acima em consideração, acho que seria sensato concluir que é bem possível que o universo seja grande demais para que possamos um estabelecer algum tipo de comunicação com outras espécies inteligentes. Sendo honesto, eu até acho que elas existem por aí, em algum canto. Seria prepotência demais acreditar que somos assim tão especiais, em um universo tão gigantesco onde não representamos nada. Se o universo fosse comparado com toda a areia das praias do nosso planeta, a Terra não seria nem mesmo um grão, mas talvez um único átomo de um dos grãos perdidos por aí. É triste imaginar que possivelmente nunca teremos a chance de conversar com outra espécie de algum lugar distante. Triste, mas irremediavelmente verossímil. Espero estar errado a respeito disso e, quem sabe um dia, ouvir a notícia de que uma mensagem apareceu vindo das estrelas. Uma mensagem que mudaria a nossa forma de pensar para sempre.

Mas por enquanto tudo o que vejo nelas é a beleza que ilumina o céu noturno. Por hora, é o bastante.

    O ‘paradoxo de Fermi’ e o silêncio do espaço

    Se você se interessa por ciência, ficção científica exploração espacial, muito provavelmente já ouviu falar do paradoxo de Fermi. Se não ouviu, não se preocupe, é uma ideia relativamente simples. O universo é muito antigo e muito vasto para que a vida não tenha surgido em outros planetas - por menor que seja a probabilidade, são bilhões de planetas e bilhões de anos! Por causa disso seria no mínimo absurdo imaginar que tal evento não ocorreu milhões de vezes, várias delas em nossa própria galáxia. Seguindo esse raciocínio nós podemos inferir que parte desses seres vivos deveriam ter evoluído até alcançar níveis de inteligência iguais ou até superiores ao nosso. Quem sabe até com tecnologia suficiente para explorar e povoar toda a galáxia, afinal tiveram bilhões de anos para isso. Mas se o problema é, se for assim, "onde eles estão"?

    Os humanos são seres "barulhentos". Não estou falando das ondas sonoras mas a respeito das ondas de rádio, imagine o tanto de informação que estamos enviando continuamente para o espaço a cada dia. Qualquer civilização que estivesse a cerca de 90 anos-luz da Terra estaria agora recebendo nossas primeiras emissões. Se tivessem qualquer tipo de antena apontada para o céu, seriam capazes de perceber um padrão estranho e regular nas ondas que receberiam em seu planeta, o que é um sinal de inteligência. O problema é que a recíproca é verdadeira! A essa altura da existência do universo, o espaço deveria estar cheio de ondas de rádio emitidas por civilizações alienígenas em seus planetas vindo de todos os cantos até nós. Mas não é o que está acontecendo, os cientistas procuram sinais assim há décadas e até agora não tiveram nenhum resultado significativo.

    Para entender um pouco mais do paradoxo de Fermi, temos que falar também da equação de Drake. Ela foi formulada pelo Dr. Frank Drake em 1961 em uma tentativa de encontrar um jeito sistemático para avaliar as numerosas probabilidades envolvidas com a existência ou não de vida alienígena. A equação leva em consideração fatores como a taxa de formação de estrelas; a fração de estrelas com planetas habitáveis; a fração de planetas que desenvolvem vida inteligente e suficientemente avançada para ser detectada. Obviamente essa equação é apenas um exercício mental, especulativo, já que não sabemos qual a probabilidade de que a vida surja em um determinado planeta, entre outras coisas. Mas mesmo assumindo valores bem pessimistas para esses fatores, a nossa galáxia ainda deveria estar cheia de vestígios de vida inteligente extraterrestre.

    Existem várias explicações possíveis para o silêncio do espaço, desde conspirações do governo que esconderia as evidências (algo meio “MIB” e tal) como também a ideia que a maioria das civilizações acabam se destruindo no processo, por exaurir os recursos do seu próprio planeta. Não vou listar todas aqui porque são inúmeras - se tiver curiosidade, basta fazer uma busca no Google. O que farei é falar das duas que considero como as mais plausíveis e que são, também, complementares: (a) o hipótese de que esses seres estariam distantes demais para serem percebidos aqui do nosso planeta e (b) a hipótese de que talvez nunca seja possível para qualquer espécie inteligente fazer viagens espaciais para conseguir explorar e colonizar o universo.

    Falando da primeira questão, não é difícil entender. Sinais de rádio, assim com qualquer tipo de transmissão por meio de radiação eletromagnética, tem um determinado alcance. Sabemos disso até bem demais, afinal, quantas vezes não sofremos com um celular que ficou sem sinal? (Insira aqui uma piada sobre o sinal da TIM!) As nossas ondas de rádio estão de fato vagando pelo espaço. Mas quanto mais se propagam e se afastam do seu ponto de emissão, mais elas se tornam fracas e sofrem interferência de outras formas de radiação que existem no universo. Ainda que nossas antenas estejam se tornando mais e mais potentes, quem sabe qual a distância máxima em que as nossas ondas de rádio seriam detectáveis? Talvez os extraterrestres de fato estejam emitido ondas como as nossas, mas é bem possível que elas acabem desaparecendo muito antes de chegar até nós. Estaríamos procurando algo que nunca seremos capazes de encontrar.

    Outra questão é que a viagem espacial pode não ser assim tão plausível quanto pensamos atualmente. Na ficção científica, sempre vemos os seres humanos colonizando vários planetas e viajando entre galáxias. Mas será que esse tipo de coisa é mesmo possível? Acho até plausível que em um futuro não tão distante a humanidade consiga viajar para planetas como Marte e criar estações espaciais por lá. Mas ir para fora do próprio sistema solar talvez seja algo simplesmente inalcançável por questões práticas. Pode ser que não exista combustível suficiente, talvez porque as viagens seriam longas demais… Não importa o motivo. Basta lembrar que na década de 50 todos imaginavam que no ano 2000 teríamos carros voadores e cintos anti-gravidade. Você está vendo algo parecido com isso por aí? Nem sempre o futuro acontece da forma que imaginamos, talvez o destino dos seres humanos seja ficar “preso” nas vizinhanças de nosso planeta natal.

    Se levamos ambas hipóteses descritas acima em consideração, acho que seria sensato concluir que é bem possível que o universo seja grande demais para que possamos um estabelecer algum tipo de comunicação com outras espécies inteligentes. Sendo honesto, eu até acho que elas existem por aí, em algum canto. Seria prepotência demais acreditar que somos assim tão especiais, em um universo tão gigantesco onde não representamos nada. Se o universo fosse comparado com toda a areia das praias do nosso planeta, a Terra não seria nem mesmo um grão, mas talvez um único átomo de um dos grãos perdidos por aí. É triste imaginar que possivelmente nunca teremos a chance de conversar com outra espécie de algum lugar distante. Triste, mas irremediavelmente verossímil. Espero estar errado a respeito disso e, quem sabe um dia, ouvir a notícia de que uma mensagem apareceu vindo das estrelas. Uma mensagem que mudaria a nossa forma de pensar para sempre.

    Mas por enquanto tudo o que vejo nelas é a beleza que ilumina o céu noturno. Por hora, é o bastante.

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  6. Como saber que um homem não presta?

Sabe aquele dia em que uma amiga sua te liga, em prantos, para te contar que aquele namorado (ou paquera) que parecia ser a pessoa mais perfeita do mundo, alguém ela sempre sonhou encontrar, finalmente fez uma sacanagem terrível com ela? Talvez tenha sido uma traição, talvez ele tenha simplesmente desaparecido sem qualquer aviso, não importa. Independente dos detalhes desse evento todos já passamos pela situação de estar consolando alguém que, há pouco tempo atrás, acreditava estar em um relacionamento quase perfeito. Algo que parecia ter saído de um conto de fadas.

Mas será mesmo que a coisa estava assim tão maravilhosa?

Após alguns minutos de conversa você vai percebendo que essa história de amor nunca foi assim tão perfeita. Você nota que a pessoa conscientemente decidia ignorar os sinais que a outra enviava, sinais esses que mostravam que ela não era uma pessoa tão confiável assim. Mas por que eram ignorados? Quase sempre, porque a tal indivíduo sabia como apertar os botões certos - era exatamente "o tipo" dela, falava as coisas que ela queria ouvir, dava atenção quando ela queria ter… Por causa disso, acabava sendo tentador ignorar todas as coisas ruins pelas coisas boas que essa convivência trazia.

Mas o final dessas histórias nunca é feliz. Claro que ninguém é perfeito e precisamos aceitar certas diferenças, mas existem coisas que não podem ser ignoradas. Você pode andar em um carro que está com o ar condicionado quebrado, mas ao notar que está saindo fumaça do motor, é melhor parar e ver o que está acontecendo. Pois o que vou fazer aqui é dizer para você quais são os sinais de fumaça de um relacionamento. Não considere isso como regra geral, nem pense nesses fatores de forma individual. Analise o contexto em que as coisas acontecem e, assim, você terá uma boa chance de notar se aquele cara "não está assim tão afim de você".

Sinal nº 1 - “Exagero nas palavras”

Sabe quando aquele cara que você começou a sair tem menos de duas semanas diz que "está morrendo de saudade de você"? Ou conta que desde o primeiro dia em que ele te conheceu ele sentiu que você era exatamente o tipo de pessoa que ele procurava? Pois então tome cuidado. Ele pode estar apaixonado sim, acontece. O que de qualquer forma é um pouco preocupante porque pessoas assim intensas demais, que se jogam demais, tem certa tendência a serem instáveis emocionalmente. Mas o mais provável é que ele esteja falando coisas "bonitas" para tentar te conquistar. Cuidado com caras que parecem se apaixonar muito rápido e fazem elogios exagerados o tempo todo.

Sinal nº 2 - “Comportamento instável”

Sabe aquele cara que diz que está morrendo de saudade de você em um dia e depois desaparece por dois? Ou que em um dia é super carinhoso e atencioso no telefone, mas no próximo ele é meio distante e frio? Isso é muito, mas muito suspeito. O problema não é se ele for naturalmente distante ou se ele não for de ligar com frequência, cada pessoa tem a sua forma de ser. Fique atenta apenas a mudanças drásticas e perceptíveis no comportamento e em atitudes contraditórias. Pessoas instáveis não são nada confiáveis, raramente você terá uma explicação convincente do motivo desse comportamento estranho e nunca terá certeza se ou quando é que elas vão, simplesmente, desaparecer.

Sinal nº 3 - “Ciúme desproporcional”

Todos nós temos a tendência de querer julgar/analisar os outros de acordo com a nossa forma de pensar. Se você tenta entender o motivo de alguém fazer certa coisa, ao fazer isso geralmente acaba imaginando "que motivo faria você ter essa atitude" ou "o que você faria naquela situação". Não é uma forma muito eficiente de tentar entender alguém mas, mais importante que isso, é algo que revela bastante sobre a nossa forma de pensar. Ciúmes enormes possuem duas fontes: insegurança e falta de caráter. Uma pessoa insegura acaba tendo crises enormes de ciúme mas uma pessoa que trai muito a namorada também sente isso. Porque ela parte do princípio de que assim como ela faz isso, a sua namorada poderia fazer o mesmo. Fique atenta!

Sinal nº 4 - “Histórias mal contadas”

Sabe aquele dia em que seu paquera te disse que iria ficar em casa, daí coincidentemente um colega dele acabou passando lá e por acaso o celular descarregou e ele não pode mandar mensagem porque os amigos estavam sem crédito? Pois é, né. Quantas vezes um namorado ou um paquera aparece com uma história dessas? Claro que de vez em quando uma confusão pode acontecer, sendo que por "de vez em quando" eu quero dizer que é algo que só deveria ocorrer uma vez a cada três, quatro meses. Isso na pior das hipóteses. Mas se você já pegou o seu namorado com histórias assim em um período muito curto de tempo é melhor você analisar até que ponto ele é mesmo uma pessoa confiável. 

Sinal nº 5 - “Falta de consideração”

Finalmente chegamos no ponto mais importante desse texto. Não existe relação humana saudável que não parta do princípio que duas pessoas que se gostam precisam ter consideração uma pela outra. Mas poucas pessoas param para pensar sobre o que é de fato ter consideração. Não é ser carinhoso, não é dizer que gosta, não é fazer 2 ligações por dia, nada disso. Consideração não é apenas "tratar bem" a outra pessoa especialmente quando for cômodo para você fazer isso. Se você gosta de falar por telefone não está fazendo nenhum favor ao fazer isso com a pessoa, certo?

Consideração é se preocupar verdadeiramente com os interesses da outra pessoa, fazer algo por ela mesmo quando isso for inconveniente para você. Analise com calma para ver se as atitudes da pessoa com quem você está saindo levam em consideração os seus interesses. Se ele respeita suas opiniões, se ele aceita suas sugestões ou pedidos, especialmente quando essas coisas vão contra o que ele pretendia ou queria fazer. Se for assim, ótimo, isso é um bom sinal. Caso não seja tome muito cuidado com as suas expectativas em relação a ela…

    Como saber que um homem não presta?

    Sabe aquele dia em que uma amiga sua te liga, em prantos, para te contar que aquele namorado (ou paquera) que parecia ser a pessoa mais perfeita do mundo, alguém ela sempre sonhou encontrar, finalmente fez uma sacanagem terrível com ela? Talvez tenha sido uma traição, talvez ele tenha simplesmente desaparecido sem qualquer aviso, não importa. Independente dos detalhes desse evento todos já passamos pela situação de estar consolando alguém que, há pouco tempo atrás, acreditava estar em um relacionamento quase perfeito. Algo que parecia ter saído de um conto de fadas.

    Mas será mesmo que a coisa estava assim tão maravilhosa?

    Após alguns minutos de conversa você vai percebendo que essa história de amor nunca foi assim tão perfeita. Você nota que a pessoa conscientemente decidia ignorar os sinais que a outra enviava, sinais esses que mostravam que ela não era uma pessoa tão confiável assim. Mas por que eram ignorados? Quase sempre, porque a tal indivíduo sabia como apertar os botões certos - era exatamente "o tipo" dela, falava as coisas que ela queria ouvir, dava atenção quando ela queria ter… Por causa disso, acabava sendo tentador ignorar todas as coisas ruins pelas coisas boas que essa convivência trazia.

    Mas o final dessas histórias nunca é feliz. Claro que ninguém é perfeito e precisamos aceitar certas diferenças, mas existem coisas que não podem ser ignoradas. Você pode andar em um carro que está com o ar condicionado quebrado, mas ao notar que está saindo fumaça do motor, é melhor parar e ver o que está acontecendo. Pois o que vou fazer aqui é dizer para você quais são os sinais de fumaça de um relacionamento. Não considere isso como regra geral, nem pense nesses fatores de forma individual. Analise o contexto em que as coisas acontecem e, assim, você terá uma boa chance de notar se aquele cara "não está assim tão afim de você".

    Sinal nº 1 - “Exagero nas palavras”

    Sabe quando aquele cara que você começou a sair tem menos de duas semanas diz que "está morrendo de saudade de você"? Ou conta que desde o primeiro dia em que ele te conheceu ele sentiu que você era exatamente o tipo de pessoa que ele procurava? Pois então tome cuidado. Ele pode estar apaixonado sim, acontece. O que de qualquer forma é um pouco preocupante porque pessoas assim intensas demais, que se jogam demais, tem certa tendência a serem instáveis emocionalmente. Mas o mais provável é que ele esteja falando coisas "bonitas" para tentar te conquistar. Cuidado com caras que parecem se apaixonar muito rápido e fazem elogios exagerados o tempo todo.

    Sinal nº 2 - “Comportamento instável”

    Sabe aquele cara que diz que está morrendo de saudade de você em um dia e depois desaparece por dois? Ou que em um dia é super carinhoso e atencioso no telefone, mas no próximo ele é meio distante e frio? Isso é muito, mas muito suspeito. O problema não é se ele for naturalmente distante ou se ele não for de ligar com frequência, cada pessoa tem a sua forma de ser. Fique atenta apenas a mudanças drásticas e perceptíveis no comportamento e em atitudes contraditórias. Pessoas instáveis não são nada confiáveis, raramente você terá uma explicação convincente do motivo desse comportamento estranho e nunca terá certeza se ou quando é que elas vão, simplesmente, desaparecer.

    Sinal nº 3 - “Ciúme desproporcional”

    Todos nós temos a tendência de querer julgar/analisar os outros de acordo com a nossa forma de pensar. Se você tenta entender o motivo de alguém fazer certa coisa, ao fazer isso geralmente acaba imaginando "que motivo faria você ter essa atitude" ou "o que você faria naquela situação". Não é uma forma muito eficiente de tentar entender alguém mas, mais importante que isso, é algo que revela bastante sobre a nossa forma de pensar. Ciúmes enormes possuem duas fontes: insegurança e falta de caráter. Uma pessoa insegura acaba tendo crises enormes de ciúme mas uma pessoa que trai muito a namorada também sente isso. Porque ela parte do princípio de que assim como ela faz isso, a sua namorada poderia fazer o mesmo. Fique atenta!

    Sinal nº 4 - “Histórias mal contadas”

    Sabe aquele dia em que seu paquera te disse que iria ficar em casa, daí coincidentemente um colega dele acabou passando lá e por acaso o celular descarregou e ele não pode mandar mensagem porque os amigos estavam sem crédito? Pois é, né. Quantas vezes um namorado ou um paquera aparece com uma história dessas? Claro que de vez em quando uma confusão pode acontecer, sendo que por "de vez em quando" eu quero dizer que é algo que só deveria ocorrer uma vez a cada três, quatro meses. Isso na pior das hipóteses. Mas se você já pegou o seu namorado com histórias assim em um período muito curto de tempo é melhor você analisar até que ponto ele é mesmo uma pessoa confiável.

    Sinal nº 5 - “Falta de consideração”

    Finalmente chegamos no ponto mais importante desse texto. Não existe relação humana saudável que não parta do princípio que duas pessoas que se gostam precisam ter consideração uma pela outra. Mas poucas pessoas param para pensar sobre o que é de fato ter consideração. Não é ser carinhoso, não é dizer que gosta, não é fazer 2 ligações por dia, nada disso. Consideração não é apenas "tratar bem" a outra pessoa especialmente quando for cômodo para você fazer isso. Se você gosta de falar por telefone não está fazendo nenhum favor ao fazer isso com a pessoa, certo?

    Consideração é se preocupar verdadeiramente com os interesses da outra pessoa, fazer algo por ela mesmo quando isso for inconveniente para você. Analise com calma para ver se as atitudes da pessoa com quem você está saindo levam em consideração os seus interesses. Se ele respeita suas opiniões, se ele aceita suas sugestões ou pedidos, especialmente quando essas coisas vão contra o que ele pretendia ou queria fazer. Se for assim, ótimo, isso é um bom sinal. Caso não seja tome muito cuidado com as suas expectativas em relação a ela…

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  7. Homens, mulheres, amizade e algo mais…

Pois é, mais um texto sobre amizade entre homens e mulheres. Para evitar a pergunta que certamente vai aparecer, vamos concordar logo com o básico: "existe amizade entre homens e mulheres"? É óbvio. Essa foi fácil, não é verdade? Uma pergunta mais interessante, então: "existe amizade entre um homem solteiro e uma mulher solteira que ele considera atraente"? Pois é, meu caro, é aqui que começa a confusão. 

Como sempre, vale lembrar que não estou falando que "todos os homens" ou "todas as mulheres" agem exatamente como descrevo neste texto, existem exceções. Tudo o que você vai ler aqui vale como uma boa regra geral, analisando a forma que as pessoas costumam agir em nossa sociedade, sem julgar aqui se é a forma correta ou não. Estamos combinados? 

Dito isso e antes de entrar definitivamente nessa questão, é preciso comentar uma diferença fundamental que existe entre homens e mulheres. Essa regra geral nos mostra que tal diferença pode ser resumida na seguinte ideia: os homens tem uma única escala de interesse, enquanto as mulheres possuem duas. 

Quando uma mulher conhece um homem, às vezes mesmo antes de sequer conversar com ele, ela o coloca em um de dois grupos possíveis: os "amigos" ou os "paqueras". Isso significa que ela já decidiu se aquela pessoa é alguém com quem ela poderia ter algum tipo de envolvimento, independente de qualquer outra coisa. Com a convivência você consegue subir em certo nível de hierarquia dentro do grupo em que você está mas, tirando algumas poucas exceções, os membros do primeiro grupo jamais serão promovidos ao segundo.

Por causa disso, as mulheres não costumam ter qualquer interesse romântico (ou, porque não dizer, carnal) nas pessoas que elas consideram como amigos. Claro que existe o famoso problema que qualquer tipo de envolvimento pode acabar destruindo a amizade, mas falaremos disso depois. Neste momento, basta entender que as mulheres não costumam se interessar muito em ter qualquer tipo de relação com os seus amigos pela simples questão de que a maioria deles acabou nesse grupo justamente pela falta de segundas intenções desde o início.

Isso não acontece com os homens. Todas as mulheres podem ser um possível alvo de paquera desde que as circunstâncias sejam apropriadas. Na verdade, o fato de se tornarem amigas pode aumentar o interesse, uma vez que além da atração física passam a ter também a afinidade por causa da convivência. Para a maioria dos homens, não existe nenhuma distinção entre os grupos "mulheres atraentes" e "amigas". Uma pessoa pode estar em ambos os grupos ao mesmo tempo e caso esteja no primeiro, sempre será uma possível candidata para um envolvimento além da amizade.

Entretanto, isso significa que, por causa disso, os homens não conseguem manter amizades verdadeiras com as mulheres? Longe disso. Primeiro o que você se deve perguntar é: o que é uma amizade? Provavelmente você vai me responder algo como "a preocupação, o carinho, a atenção que damos a outra pessoa". Por acaso, quando um homem tem algum tipo de envolvimento com uma mulher, isso apaga todas as atitudes anteriores que ele teve em relação a ela? É certo que não. Então por que, para ser amigo, não poderia existir nenhum nível de atração se ela não faz parte da definição de amizade?

Essa hipótese estaria correta se você pensar que o único motivo para toda a atenção que um homem ofereceu a uma mulher foi por causa do interesse dele, mas isso não é verdade. Pode ser o caso de alguns homens, de fato, mas não é o de todos. Muitos deles possuem um carinho genuíno pela pessoa, não por causa, mas apesar da atração que sentem por ela. Gostam de fato da sua companhia, se preocupam com seu bem-estar e todos os outros pre-requisitos necessários para uma amizade real. Mas paralelamente a tudo isso, continua existindo o interesse.

É verdade, entretanto, que existe uma crítica plausível a esse comportamento masculino: a de que o envolvimento com um amigo tem grandes chances de provocar o término da amizade. Por isso, quando um homem tem essa atitude, pode parecer que ele valoriza mais a oportunidade de ter um envolvimento momentâneo com a pessoa do que a amizade que cultivaram. Mas aqui existem duas questões. Primeiro, que essa crítica normalmente surge da pessoa que não tem qualquer atração pela outra; é fácil falar quando você não é afetado por isso, certo? Segundo, uma amizade não precisa terminar por causa disso.

O problema é que falta maturidade equilíbrio emocional na maioria dessas relações. Desde as duas pessoas sejam claras e honestas uma com a outra desde o início, não há motivo para desentendimentos. Seja como for, queria deixar ao menos uma coisa clara com esse texto: amizade é algo que independe de atração, pessoas que são amigas podem ou não se sentir atraídas uma pela outra. Respondendo então a pergunta inicial, um homem solteiro e uma mulher solteira que ele considera atraente podem, sim, ser amigos. Não tenha dúvidas disso.

Mas se você der abertura, não é ele quem vai recusar algo mais.

    Homens, mulheres, amizade e algo mais…

    Pois é, mais um texto sobre amizade entre homens e mulheres. Para evitar a pergunta que certamente vai aparecer, vamos concordar logo com o básico: "existe amizade entre homens e mulheres"? É óbvio. Essa foi fácil, não é verdade? Uma pergunta mais interessante, então: "existe amizade entre um homem solteiro e uma mulher solteira que ele considera atraente"? Pois é, meu caro, é aqui que começa a confusão.

    Como sempre, vale lembrar que não estou falando que "todos os homens" ou "todas as mulheres" agem exatamente como descrevo neste texto, existem exceções. Tudo o que você vai ler aqui vale como uma boa regra geral, analisando a forma que as pessoas costumam agir em nossa sociedade, sem julgar aqui se é a forma correta ou não. Estamos combinados?

    Dito isso e antes de entrar definitivamente nessa questão, é preciso comentar uma diferença fundamental que existe entre homens e mulheres. Essa regra geral nos mostra que tal diferença pode ser resumida na seguinte ideia: os homens tem uma única escala de interesse, enquanto as mulheres possuem duas.

    Quando uma mulher conhece um homem, às vezes mesmo antes de sequer conversar com ele, ela o coloca em um de dois grupos possíveis: os "amigos" ou os "paqueras". Isso significa que ela já decidiu se aquela pessoa é alguém com quem ela poderia ter algum tipo de envolvimento, independente de qualquer outra coisa. Com a convivência você consegue subir em certo nível de hierarquia dentro do grupo em que você está mas, tirando algumas poucas exceções, os membros do primeiro grupo jamais serão promovidos ao segundo.

    Por causa disso, as mulheres não costumam ter qualquer interesse romântico (ou, porque não dizer, carnal) nas pessoas que elas consideram como amigos. Claro que existe o famoso problema que qualquer tipo de envolvimento pode acabar destruindo a amizade, mas falaremos disso depois. Neste momento, basta entender que as mulheres não costumam se interessar muito em ter qualquer tipo de relação com os seus amigos pela simples questão de que a maioria deles acabou nesse grupo justamente pela falta de segundas intenções desde o início.

    Isso não acontece com os homens. Todas as mulheres podem ser um possível alvo de paquera desde que as circunstâncias sejam apropriadas. Na verdade, o fato de se tornarem amigas pode aumentar o interesse, uma vez que além da atração física passam a ter também a afinidade por causa da convivência. Para a maioria dos homens, não existe nenhuma distinção entre os grupos "mulheres atraentes" e "amigas". Uma pessoa pode estar em ambos os grupos ao mesmo tempo e caso esteja no primeiro, sempre será uma possível candidata para um envolvimento além da amizade.

    Entretanto, isso significa que, por causa disso, os homens não conseguem manter amizades verdadeiras com as mulheres? Longe disso. Primeiro o que você se deve perguntar é: o que é uma amizade? Provavelmente você vai me responder algo como "a preocupação, o carinho, a atenção que damos a outra pessoa". Por acaso, quando um homem tem algum tipo de envolvimento com uma mulher, isso apaga todas as atitudes anteriores que ele teve em relação a ela? É certo que não. Então por que, para ser amigo, não poderia existir nenhum nível de atração se ela não faz parte da definição de amizade?

    Essa hipótese estaria correta se você pensar que o único motivo para toda a atenção que um homem ofereceu a uma mulher foi por causa do interesse dele, mas isso não é verdade. Pode ser o caso de alguns homens, de fato, mas não é o de todos. Muitos deles possuem um carinho genuíno pela pessoa, não por causa, mas apesar da atração que sentem por ela. Gostam de fato da sua companhia, se preocupam com seu bem-estar e todos os outros pre-requisitos necessários para uma amizade real. Mas paralelamente a tudo isso, continua existindo o interesse.

    É verdade, entretanto, que existe uma crítica plausível a esse comportamento masculino: a de que o envolvimento com um amigo tem grandes chances de provocar o término da amizade. Por isso, quando um homem tem essa atitude, pode parecer que ele valoriza mais a oportunidade de ter um envolvimento momentâneo com a pessoa do que a amizade que cultivaram. Mas aqui existem duas questões. Primeiro, que essa crítica normalmente surge da pessoa que não tem qualquer atração pela outra; é fácil falar quando você não é afetado por isso, certo? Segundo, uma amizade não precisa terminar por causa disso.

    O problema é que falta maturidade equilíbrio emocional na maioria dessas relações. Desde as duas pessoas sejam claras e honestas uma com a outra desde o início, não há motivo para desentendimentos. Seja como for, queria deixar ao menos uma coisa clara com esse texto: amizade é algo que independe de atração, pessoas que são amigas podem ou não se sentir atraídas uma pela outra. Respondendo então a pergunta inicial, um homem solteiro e uma mulher solteira que ele considera atraente podem, sim, ser amigos. Não tenha dúvidas disso.

    Mas se você der abertura, não é ele quem vai recusar algo mais.

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    1 nota
  8. Um dia triste…

Preciso confessar: como eu queria estar aqui escrevendo um texto diferente. Mas infelizmente não posso, existem textos que não escrevemos porque queremos escrever, escrevemos porque precisam ser escritos. Aqui eu preciso falar da história de Roberta Baêta. Talvez você tenha visto algo a respeito no Facebook, talvez não. Resumindo o que aconteceu, essa jovem de 17 anos cometeu suicídio no final do ano passado e isso seria apenas mais um caso lamentável se não fosse por um detalhe: ela fez isso por não suportar a pressão psicológica que passou a receber da família, dos conhecidos e amigos após revelar que era atéia. Por mais surreal que isso possa parecer.

Um dos exemplos do tipo de coisa que ela passou está na imagem que ilustra esse post, logo acima. Imagine o que é você ser tratado como uma aberração pelos seus próprios pais, sofrendo ameaças diariamente e agressões verbais de todos os tipos. Imagine que o mesmo tipo de coisa acontece quando você vai para a escola, quando sai com os amigos, que isso te persegue onde quer que você vá. Não estou dizendo que o suicídio é a única saída e nem que qualquer pessoa faria o mesmo em uma situação dessas, mas vamos concordar que dá para entender como o desespero, a depressão e o isolamento social contribuíram para tornar a vida de Roberta tão insuportável que ela decidiu que não aguentaria mais um dia passando por tudo isso.

A situação foi tão absurda que na página oficial da Tvlafaiete, uma rede do estado de Minas Gerais, apareceu uma postagem sobre o evento afirmando que tudo ocorreu por causa das "ideias passadas pela internet por pessoas que se dizem "ateus" e que dedicam seu tempo a tentarem desconstruir Deus, Jesus Cristo e outros divindades que nos são caras". Certo, então agora os ateus nas redes sociais são responsáveis por suicídios e não as pessoas que tornaram a vida dela um caos? Mas espere, tem mais: "e além disso pregam a desesperança, a falta de fé e até mesmo o culto ao mal". Lindo não é? Como esperado eles já apagaram a postagem original, mas não é difícil encontrar pelo Facebook screenshots do texto publicado na página. São afirmações tão preconceituosas, tão absurdas, tão pueris que me recuso a acreditar que alguém pode falar algo assim em sã consciência.

É impossível não parafrasear Christopher Hitchens: "pessoas boas fazem coisas boas, pessoas más fazem coisas más; mas para uma boa pessoa fazer uma coisa má é preciso a religião". É certo que a religião não é a única origem desse tipo de comportamento, mas é sem dúvida a fonte mais comum. Para uma pessoa que é essencialmente boa cometer um ato vil ela precisa estar enganada a respeito dos princípios básicos que norteiam o seu comportamento. Precisa acreditar de todo o coração que o que está fazendo é justificado, que é uma atitude correta. Um engano tão grande em ideias tão fundamentais precisa vir de algo que a pessoa se recusa a analisar, que está acima de qualquer crítica, algo que foi acostumada a acreditar desde pequena. Quantas coisas além da religião tem esse privilégio?

Mas talvez isso seja um pouco de ingenuidade de minha parte. Acho que no fundo eu não quero acreditar que as pessoas são realmente capazes de cometer atos tão desprezíveis conscientemente. Talvez seja uma forma de manter certa esperança na humanidade: acreditar que as pessoas estão cegas, que cresceram em um ambiente que influenciou-as de tal forma que já não são capazes de analisar de forma crítica aquilo que dizem ou fazem. Ainda assim, eu quero gritar para o mundo! Queria olhar nos olhos de cada pessoa que ofendeu, tratou mal ou agrediu Roberta e dizer: "você contribuiu para isso". Não posso chamá-los de assassinos, porque não o são, mas são cúmplices. São parte do grupo que continua propagando o há de pior no ser humano: o preconceito, o egoísmo e a ilusão de superioridade.

Mas o problema é que Roberta não é a primeira e nem será a última vítima desse tipo de coisa. Ela se tornou o mártir do momento, é verdade, mas existem centenas de jovens, adultos e idosos em todo o país que passam por algo parecido. Indivíduos anônimos, que não tem páginas de Facebook ou cobertura da imprensa. Que podem não ter amigos para divulgar sua luta diária e a sua dor. Roberta já se foi e por ela ninguém pode fazer mais nada. Mas podemos fazer algo por todas as pessoas que ainda vivem e que são alvo de preconceito. Desde que toda essa comoção não pare apenas por aqui nas redes sociais. Não falo da criação de leis contra o preconceito ou nada assim, falo de atitudes simples que a longo prazo podem mudar a forma que as pessoas pensam,

Se você é ateu, converse com seus familiares, amigos e conhecidos quando esse tipo de discussão aparecer. Explique por que você pensa assim e por que isso não muda em nada o seu caráter. Não fique criando briguinhas desnecessárias pelo Facebook ou fazendo comentários desagradáveis em cada post religioso que você vê, isso não ajuda em nada. Eu entendo a sua revolta, especialmente por causa de eventos como esse, mas não é assim que você conseguirá desfazer a imagem distorcida e estereotipada dos ateus. Se você é um religioso, mas tem o mínimo de bom senso, não deixe que outros religiosos propaguem ideias erradas a respeito do ateísmo. Converse com eles, porque certamente eles estarão mais dispostos a ouvir a sua opinião do que a opinião dos ateus que eles desprezam tanto.

Basta isso. Não é pedir muito, certo? Se todos fizerem a sua parte, talvez não amanhã, mas com o tempo poderemos mudar a visão da sociedade. Quem sabe assim conseguimos evitar que eventos tão tristes como esse aconteçam novamente.

    Um dia triste…

    Preciso confessar: como eu queria estar aqui escrevendo um texto diferente. Mas infelizmente não posso, existem textos que não escrevemos porque queremos escrever, escrevemos porque precisam ser escritos. Aqui eu preciso falar da história de Roberta Baêta. Talvez você tenha visto algo a respeito no Facebook, talvez não. Resumindo o que aconteceu, essa jovem de 17 anos cometeu suicídio no final do ano passado e isso seria apenas mais um caso lamentável se não fosse por um detalhe: ela fez isso por não suportar a pressão psicológica que passou a receber da família, dos conhecidos e amigos após revelar que era atéia. Por mais surreal que isso possa parecer.

    Um dos exemplos do tipo de coisa que ela passou está na imagem que ilustra esse post, logo acima. Imagine o que é você ser tratado como uma aberração pelos seus próprios pais, sofrendo ameaças diariamente e agressões verbais de todos os tipos. Imagine que o mesmo tipo de coisa acontece quando você vai para a escola, quando sai com os amigos, que isso te persegue onde quer que você vá. Não estou dizendo que o suicídio é a única saída e nem que qualquer pessoa faria o mesmo em uma situação dessas, mas vamos concordar que dá para entender como o desespero, a depressão e o isolamento social contribuíram para tornar a vida de Roberta tão insuportável que ela decidiu que não aguentaria mais um dia passando por tudo isso.

    A situação foi tão absurda que na página oficial da Tvlafaiete, uma rede do estado de Minas Gerais, apareceu uma postagem sobre o evento afirmando que tudo ocorreu por causa das "ideias passadas pela internet por pessoas que se dizem "ateus" e que dedicam seu tempo a tentarem desconstruir Deus, Jesus Cristo e outros divindades que nos são caras". Certo, então agora os ateus nas redes sociais são responsáveis por suicídios e não as pessoas que tornaram a vida dela um caos? Mas espere, tem mais: "e além disso pregam a desesperança, a falta de fé e até mesmo o culto ao mal". Lindo não é? Como esperado eles já apagaram a postagem original, mas não é difícil encontrar pelo Facebook screenshots do texto publicado na página. São afirmações tão preconceituosas, tão absurdas, tão pueris que me recuso a acreditar que alguém pode falar algo assim em sã consciência.

    É impossível não parafrasear Christopher Hitchens: "pessoas boas fazem coisas boas, pessoas más fazem coisas más; mas para uma boa pessoa fazer uma coisa má é preciso a religião". É certo que a religião não é a única origem desse tipo de comportamento, mas é sem dúvida a fonte mais comum. Para uma pessoa que é essencialmente boa cometer um ato vil ela precisa estar enganada a respeito dos princípios básicos que norteiam o seu comportamento. Precisa acreditar de todo o coração que o que está fazendo é justificado, que é uma atitude correta. Um engano tão grande em ideias tão fundamentais precisa vir de algo que a pessoa se recusa a analisar, que está acima de qualquer crítica, algo que foi acostumada a acreditar desde pequena. Quantas coisas além da religião tem esse privilégio?

    Mas talvez isso seja um pouco de ingenuidade de minha parte. Acho que no fundo eu não quero acreditar que as pessoas são realmente capazes de cometer atos tão desprezíveis conscientemente. Talvez seja uma forma de manter certa esperança na humanidade: acreditar que as pessoas estão cegas, que cresceram em um ambiente que influenciou-as de tal forma que já não são capazes de analisar de forma crítica aquilo que dizem ou fazem. Ainda assim, eu quero gritar para o mundo! Queria olhar nos olhos de cada pessoa que ofendeu, tratou mal ou agrediu Roberta e dizer: "você contribuiu para isso". Não posso chamá-los de assassinos, porque não o são, mas são cúmplices. São parte do grupo que continua propagando o há de pior no ser humano: o preconceito, o egoísmo e a ilusão de superioridade.

    Mas o problema é que Roberta não é a primeira e nem será a última vítima desse tipo de coisa. Ela se tornou o mártir do momento, é verdade, mas existem centenas de jovens, adultos e idosos em todo o país que passam por algo parecido. Indivíduos anônimos, que não tem páginas de Facebook ou cobertura da imprensa. Que podem não ter amigos para divulgar sua luta diária e a sua dor. Roberta já se foi e por ela ninguém pode fazer mais nada. Mas podemos fazer algo por todas as pessoas que ainda vivem e que são alvo de preconceito. Desde que toda essa comoção não pare apenas por aqui nas redes sociais. Não falo da criação de leis contra o preconceito ou nada assim, falo de atitudes simples que a longo prazo podem mudar a forma que as pessoas pensam,

    Se você é ateu, converse com seus familiares, amigos e conhecidos quando esse tipo de discussão aparecer. Explique por que você pensa assim e por que isso não muda em nada o seu caráter. Não fique criando briguinhas desnecessárias pelo Facebook ou fazendo comentários desagradáveis em cada post religioso que você vê, isso não ajuda em nada. Eu entendo a sua revolta, especialmente por causa de eventos como esse, mas não é assim que você conseguirá desfazer a imagem distorcida e estereotipada dos ateus. Se você é um religioso, mas tem o mínimo de bom senso, não deixe que outros religiosos propaguem ideias erradas a respeito do ateísmo. Converse com eles, porque certamente eles estarão mais dispostos a ouvir a sua opinião do que a opinião dos ateus que eles desprezam tanto.

    Basta isso. Não é pedir muito, certo? Se todos fizerem a sua parte, talvez não amanhã, mas com o tempo poderemos mudar a visão da sociedade. Quem sabe assim conseguimos evitar que eventos tão tristes como esse aconteçam novamente.

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  9. Gente bumerangue, isso eu ainda tento entender!

Me perdoem os físicos, mas mais do que os mistérios da energia escura, existe algo que me deixa muito mais perplexo atualmente. Sabe aquele dia comum em que você está fazendo suas coisas, rotineiramente, quando de repente… Uma pessoa que você não fala faz "séculos" resolve aparecer do nada, dizendo como sente sua falta, só para marcar presença em sua vida? Pois então, isso para mim é um dos maiores mistérios da atualidade. Claro que eu entendo que, de vez em quando, a gente percebe que acabou se afastando de alguém de quem gostamos. Em uma situação dessas a solução mais simples é tentar se aproximar novamente, dizendo como a presença da pessoa faz falta. Simples e eficaz, não é?

Mas é justamente aqui que a história fica interessante. Se sua motivação é a saudade que você sente, imagino que você tentaria manter contato com essa pessoa, seja tentando marcar um dia para encontrar com ela para relembrar os velhos tempos, quem sabe ao menos tentar uma conversa amigável pela internet, ou porque não, até mesmo por mensagens de celular. Estranhamente, não é isso que acontece em alguns casos. Não, as pessoas que agem como bumerangue se aproximam repentinamente de você apenas para desaparecer instantes depois como se nunca tivessem aparecido. No final, você fica se perguntando qual foi o sentido de tudo isso. Se ela não pretendia manter contato, por que então resolveu aparecer novamente?

Creio que eu tenho um dom de atrair pessoas assim porque isso não aconteceu comigo apenas uma ou duas vezes, eu já perdi a conta. Um exemplo que me ocorre logo de cara é uma certa pessoa que foi uma amiga da época do colégio. Nos reencontramos pela internet há algum tempo, conversamos um pouco, mas em nenhum momento existe uma abertura para que possamos marcar algo, sair para um passeio ou qualquer tipo de interação social "normal", todas as tentativas acabam falhando. Como conversas por internet são muito superficiais, invariavelmente acabamos nos afastando. Só que depois de alguns meses de afastamento, o que acontece? Você já adivinhou: ela aparece novamente, tentando puxar assunto, perguntando como eu estou, se tenho novidades… 

É isso que não entendo: qual o propósito? Apenas para trocarmos mais cinco ou seis mensagens online antes do assunto acabar e nos afastarmos novamente? E então o que, repetimos esse ciclo mais quantas vezes? Quem entende?

Ah, mas não é só esse caso. Tenho também uma amiga que gosta de aparecer e desaparecer quando dá na telha. Em um dia aleatório ela me liga, perguntando se quero sair com ela para dar um passeio. Em outros, não retorna ligações, passa semanas ou até meses sem responder qualquer uma das mensagens que deixei no Facebook (que infelizmente, graças ao novo modelo do chat, eu sei que ela leu), ou por mensagens de celular. Isso é claro até o belo dia que ela mesma decida deixar uma para mim, como se nada tivesse acontecido. Falando em mensagens de celular, tenho também uma outra conhecida que adora aparecer de repente deixando um SMS. Chega a ser engraçado porque ela praticamente nunca dá prosseguimento a conversa caso eu responda. 

Eu juro que pensei bastante a respeito, mas realmente, não consigo entender. Talvez porque minha mente seja muito simples e direta: se eu falo com uma pessoa é porque quero manter contato; se quero manter contato ela é alguém que quero conviver. Mas quem sabe… Existem tantas pessoas e tantas formas de pensar que, talvez, exista uma explicação bem plausível para esse tipo de coisa. Mas até que eu descubra qual é, vou continuar pensando que o mundo é cheio de gente estranha, que as pessoas-bumerangue são um dos exemplos que eu nunca vou conseguir entender.

    Gente bumerangue, isso eu ainda tento entender!

    Me perdoem os físicos, mas mais do que os mistérios da energia escura, existe algo que me deixa muito mais perplexo atualmente. Sabe aquele dia comum em que você está fazendo suas coisas, rotineiramente, quando de repente… Uma pessoa que você não fala faz "séculos" resolve aparecer do nada, dizendo como sente sua falta, só para marcar presença em sua vida? Pois então, isso para mim é um dos maiores mistérios da atualidade. Claro que eu entendo que, de vez em quando, a gente percebe que acabou se afastando de alguém de quem gostamos. Em uma situação dessas a solução mais simples é tentar se aproximar novamente, dizendo como a presença da pessoa faz falta. Simples e eficaz, não é?

    Mas é justamente aqui que a história fica interessante. Se sua motivação é a saudade que você sente, imagino que você tentaria manter contato com essa pessoa, seja tentando marcar um dia para encontrar com ela para relembrar os velhos tempos, quem sabe ao menos tentar uma conversa amigável pela internet, ou porque não, até mesmo por mensagens de celular. Estranhamente, não é isso que acontece em alguns casos. Não, as pessoas que agem como bumerangue se aproximam repentinamente de você apenas para desaparecer instantes depois como se nunca tivessem aparecido. No final, você fica se perguntando qual foi o sentido de tudo isso. Se ela não pretendia manter contato, por que então resolveu aparecer novamente?

    Creio que eu tenho um dom de atrair pessoas assim porque isso não aconteceu comigo apenas uma ou duas vezes, eu já perdi a conta. Um exemplo que me ocorre logo de cara é uma certa pessoa que foi uma amiga da época do colégio. Nos reencontramos pela internet há algum tempo, conversamos um pouco, mas em nenhum momento existe uma abertura para que possamos marcar algo, sair para um passeio ou qualquer tipo de interação social "normal", todas as tentativas acabam falhando. Como conversas por internet são muito superficiais, invariavelmente acabamos nos afastando. Só que depois de alguns meses de afastamento, o que acontece? Você já adivinhou: ela aparece novamente, tentando puxar assunto, perguntando como eu estou, se tenho novidades…

    É isso que não entendo: qual o propósito? Apenas para trocarmos mais cinco ou seis mensagens online antes do assunto acabar e nos afastarmos novamente? E então o que, repetimos esse ciclo mais quantas vezes? Quem entende?

    Ah, mas não é só esse caso. Tenho também uma amiga que gosta de aparecer e desaparecer quando dá na telha. Em um dia aleatório ela me liga, perguntando se quero sair com ela para dar um passeio. Em outros, não retorna ligações, passa semanas ou até meses sem responder qualquer uma das mensagens que deixei no Facebook (que infelizmente, graças ao novo modelo do chat, eu sei que ela leu), ou por mensagens de celular. Isso é claro até o belo dia que ela mesma decida deixar uma para mim, como se nada tivesse acontecido. Falando em mensagens de celular, tenho também uma outra conhecida que adora aparecer de repente deixando um SMS. Chega a ser engraçado porque ela praticamente nunca dá prosseguimento a conversa caso eu responda.

    Eu juro que pensei bastante a respeito, mas realmente, não consigo entender. Talvez porque minha mente seja muito simples e direta: se eu falo com uma pessoa é porque quero manter contato; se quero manter contato ela é alguém que quero conviver. Mas quem sabe… Existem tantas pessoas e tantas formas de pensar que, talvez, exista uma explicação bem plausível para esse tipo de coisa. Mas até que eu descubra qual é, vou continuar pensando que o mundo é cheio de gente estranha, que as pessoas-bumerangue são um dos exemplos que eu nunca vou conseguir entender.

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  10. Por que jogos eletrônicos fazem cada vez mais sucesso?

Essa é uma pergunta que acho muito interessante, não porque eu pense que a resposta é difícil, mas porque ainda existem muitas pessoas que não percebem o motivo. O crescimento da indústria dos jogos eletrônicos é tão grande que já faz alguns anos que ela superou o cinema em tamanho e rentabilidade, o que não é de forma alguma uma façanha pequena e a tendência é aumentar cada vez mais. Mas se os jogos fazem um sucesso tão grande, por que ainda existem tantas pessoas que os consideram como um passatempo infantil, por que os jogos ainda são vistos como uma forma de entretenimento inferior a tantas outras por parte da população? 

Essa pergunta parece sensata, mas esconde um detalhe: o de que essa imagem já diminuiu bastante e muito provavelmente ficará ainda mais fraca nos próximos anos.

Quando eu tinha meus 10 anos de idade, realmente, jogos eletrônicos eram mesmo coisa de criança, videogames eram presentes que os pais davam aos seus filhos no aniversário ou natal, mas raramente se interessavam em “brincar” com eles. Só que isso acontecia há cerca de 20 anos e, nessas duas décadas, algo interessante aconteceu: essas crianças se tornaram adultos, que cresceram junto com os jogos. São agora pais de família, engenheiros, advogados, médicos, pessoas que agora compram os próprios videogames e escolhem usar parte do seu tempo livre nessa atividade. É uma tendência, algo que muito provavelmente vai se repetir na próxima geração sedimentando ainda mais os jogos eletrônicos na cultura popular.

Isso explica parte da questão, mas não tudo. Por que é que as pessoas não deixaram de jogar com o passar dos anos? Afinal a maioria delas não brinca mais de “esconde-esconde”, ou “Banco Imobiliário”, então por que videogames? Você vai chegar bem perto da resposta se trocar os exemplos anteriores por outros passatempos: por que é que adultos ainda jogam futebol ou baralho? Você poderia alegar que futebol é uma atividade física que traz vários benefícios à saúde, mas vamos ser honestos, não é isso que motiva a esmagadora maioria dos praticantes. Além disso, e o baralho? Ele não traz benefício algum, sendo que já se sabe que os jogos eletrônicos oferecem vantagens nesse quesito.

Então já podemos concluir que parte do motivo do sucesso dos jogos eletrônicos é que eles são divertidos, em um sentido mais amplo da palavra. Exigem concentração, coordenação motora, são desafiadores… Mas não é só isso. Assim como o público, os jogos também amadureceram. É bem verdade que ainda existem muitos jogos simples e despretensiosos, mas isso não é mais o caso de todos eles. Jogos atualmente possuem enredos que em muitos casos rivalizam com qualquer um desses filmes que você pode encontrar nos cinemas atualmente. Claro que não existem tantos jogos com histórias profundas como um livro de Shakespeare, mas o mesmo pode ser dito da maioria dos filmes, não é verdade?

Entretanto, os jogos possuem uma característica única que traz algo novo à experiência de sua apreciação: a interatividade. Bons livros e bons filmes fazem você se identificar com o protagonista, mas bons jogos podem te colocar no papel do protagonista. É um tipo de relação completamente diferente. Os jogos eletrônicos são um dos poucos lugares além da própria vivência em sociedade onde podemos interagir com o mundo e analisar a forma que ele responde. Quando você está imerso em um jogo, você cria uma identificação com o personagem de forma distinta do que ocorre em filmes e livros. Não é necessariamente melhor, mas é única e, por isso mesmo, abre um leque de possibilidades novas que nenhum outro meio consegue.

Eu posso citar aqui dois bons exemplos. Existe um jogo chamado Shadow of Colossus, onde você controla um personagem que, para salvar a mulher que ama, precisa enfrentar monstros gigantescos. E só isso, não existem outras pessoas, não existem cidades, nem mesmo existem monstros pelo caminho. Você passa grande parte do jogo andando por um cenário vasto e solitário, apenas com o seu cavalo como companhia, procurando por cada um desses monstros. O silêncio e paz profunda encontrada nos cenários criam um contraste enorme com os momentos de tensão nas batalhas. Sem contar com a sua relação com o seu cavalo, que vai se desenvolvendo durante todo o jogo, culminando em uma cena trágica que acontece perto do fim da história. 

Existem também jogos que tentam criar uma experiência que mexe com conceitos éticos e morais, como o Planescape: Torment. O tema do jogo pode se resumir em uma frase icônica que é repetida várias vezes na história: "what can change the nature of man" (“o que pode mudar a natureza do homem”)? Neste jogo, em diversos momentos, você precisa fazer escolhas na forma de tratar as outras pessoas para atingir seus objetivos. Dependendo das escolhas que faz a história muda, por causa disso cada jogador passará por uma experiência diferente. Isso sem contar de que é um dos jogos mais bem escritos que já vi e com um texto tão extenso que seria suficiente para dois, talvez até três livros. Não é um exagero, pode ter certeza.

Poderia continuar citando vários, mas não acho necessário. O ponto é que os jogos modernos vão muito além de simples jogos, eles oferecem experiências únicas que só são possíveis por causa da interatividade. E olha que eu nem entrei na questão dos jogos online, isso daria um outro texto. São essas experiências únicas que os jogadores descobriram nos jogos eletrônicos e por causa delas que eles mantém o hábito de jogar. Claro que não estou defendendo os jogos como uma forma “superior” de expressão - se algo, estou dizendo que são mais um, entre tantos outros formatos possíveis. Você não precisa gostar deles, assim como não precisa gostar de futebol ou de baralho, mas pode ao menos entender o que existe que faz com que tantas outras pessoas gostem.

    Por que jogos eletrônicos fazem cada vez mais sucesso?

    Essa é uma pergunta que acho muito interessante, não porque eu pense que a resposta é difícil, mas porque ainda existem muitas pessoas que não percebem o motivo. O crescimento da indústria dos jogos eletrônicos é tão grande que já faz alguns anos que ela superou o cinema em tamanho e rentabilidade, o que não é de forma alguma uma façanha pequena e a tendência é aumentar cada vez mais. Mas se os jogos fazem um sucesso tão grande, por que ainda existem tantas pessoas que os consideram como um passatempo infantil, por que os jogos ainda são vistos como uma forma de entretenimento inferior a tantas outras por parte da população?

    Essa pergunta parece sensata, mas esconde um detalhe: o de que essa imagem já diminuiu bastante e muito provavelmente ficará ainda mais fraca nos próximos anos.

    Quando eu tinha meus 10 anos de idade, realmente, jogos eletrônicos eram mesmo coisa de criança, videogames eram presentes que os pais davam aos seus filhos no aniversário ou natal, mas raramente se interessavam em “brincar” com eles. Só que isso acontecia há cerca de 20 anos e, nessas duas décadas, algo interessante aconteceu: essas crianças se tornaram adultos, que cresceram junto com os jogos. São agora pais de família, engenheiros, advogados, médicos, pessoas que agora compram os próprios videogames e escolhem usar parte do seu tempo livre nessa atividade. É uma tendência, algo que muito provavelmente vai se repetir na próxima geração sedimentando ainda mais os jogos eletrônicos na cultura popular.

    Isso explica parte da questão, mas não tudo. Por que é que as pessoas não deixaram de jogar com o passar dos anos? Afinal a maioria delas não brinca mais de “esconde-esconde”, ou “Banco Imobiliário”, então por que videogames? Você vai chegar bem perto da resposta se trocar os exemplos anteriores por outros passatempos: por que é que adultos ainda jogam futebol ou baralho? Você poderia alegar que futebol é uma atividade física que traz vários benefícios à saúde, mas vamos ser honestos, não é isso que motiva a esmagadora maioria dos praticantes. Além disso, e o baralho? Ele não traz benefício algum, sendo que já se sabe que os jogos eletrônicos oferecem vantagens nesse quesito.

    Então já podemos concluir que parte do motivo do sucesso dos jogos eletrônicos é que eles são divertidos, em um sentido mais amplo da palavra. Exigem concentração, coordenação motora, são desafiadores… Mas não é só isso. Assim como o público, os jogos também amadureceram. É bem verdade que ainda existem muitos jogos simples e despretensiosos, mas isso não é mais o caso de todos eles. Jogos atualmente possuem enredos que em muitos casos rivalizam com qualquer um desses filmes que você pode encontrar nos cinemas atualmente. Claro que não existem tantos jogos com histórias profundas como um livro de Shakespeare, mas o mesmo pode ser dito da maioria dos filmes, não é verdade?

    Entretanto, os jogos possuem uma característica única que traz algo novo à experiência de sua apreciação: a interatividade. Bons livros e bons filmes fazem você se identificar com o protagonista, mas bons jogos podem te colocar no papel do protagonista. É um tipo de relação completamente diferente. Os jogos eletrônicos são um dos poucos lugares além da própria vivência em sociedade onde podemos interagir com o mundo e analisar a forma que ele responde. Quando você está imerso em um jogo, você cria uma identificação com o personagem de forma distinta do que ocorre em filmes e livros. Não é necessariamente melhor, mas é única e, por isso mesmo, abre um leque de possibilidades novas que nenhum outro meio consegue.

    Eu posso citar aqui dois bons exemplos. Existe um jogo chamado Shadow of Colossus, onde você controla um personagem que, para salvar a mulher que ama, precisa enfrentar monstros gigantescos. E só isso, não existem outras pessoas, não existem cidades, nem mesmo existem monstros pelo caminho. Você passa grande parte do jogo andando por um cenário vasto e solitário, apenas com o seu cavalo como companhia, procurando por cada um desses monstros. O silêncio e paz profunda encontrada nos cenários criam um contraste enorme com os momentos de tensão nas batalhas. Sem contar com a sua relação com o seu cavalo, que vai se desenvolvendo durante todo o jogo, culminando em uma cena trágica que acontece perto do fim da história.

    Existem também jogos que tentam criar uma experiência que mexe com conceitos éticos e morais, como o Planescape: Torment. O tema do jogo pode se resumir em uma frase icônica que é repetida várias vezes na história: "what can change the nature of man" (“o que pode mudar a natureza do homem”)? Neste jogo, em diversos momentos, você precisa fazer escolhas na forma de tratar as outras pessoas para atingir seus objetivos. Dependendo das escolhas que faz a história muda, por causa disso cada jogador passará por uma experiência diferente. Isso sem contar de que é um dos jogos mais bem escritos que já vi e com um texto tão extenso que seria suficiente para dois, talvez até três livros. Não é um exagero, pode ter certeza.

    Poderia continuar citando vários, mas não acho necessário. O ponto é que os jogos modernos vão muito além de simples jogos, eles oferecem experiências únicas que só são possíveis por causa da interatividade. E olha que eu nem entrei na questão dos jogos online, isso daria um outro texto. São essas experiências únicas que os jogadores descobriram nos jogos eletrônicos e por causa delas que eles mantém o hábito de jogar. Claro que não estou defendendo os jogos como uma forma “superior” de expressão - se algo, estou dizendo que são mais um, entre tantos outros formatos possíveis. Você não precisa gostar deles, assim como não precisa gostar de futebol ou de baralho, mas pode ao menos entender o que existe que faz com que tantas outras pessoas gostem.

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